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O luto não é depressão e pode ser elaborado, não no isolamento, e sim com a construção responsável de redes de apoio. Gláucia R. Tavares |
A Rede API (Apoio a Perdas Irreparáveis) nasceu da necessidade da troca de idéias e experiências entre pessoas que haviam perdido filhos. Com o passar do tempo, estas perdas foram ampliadas a outros entes queridos. A composição da rede passou a ser de pessoas que tiveram perdas em suas vidas e que desejam compartilhar suas vivências e ampliar suas percepções, aprendizados e buscas de novos caminhos em suas vidas. A abelha passou a ser o símbolo do grupo: há a produção do mel e também a presença do ferrão. As abelhas são as operárias da colméia, retiram o pólem das flores, sem retirar o viço. Encontram-se abelhas representadas em alguns túmulos como sinal de sobrevivência além-morte, na medida em que a abelha torna-se símbolo de ressurreição.
A representação da rede aproxima-se ao trabalho de cooperação desenvolvido em uma colméia: partilha-se a dor e busca-se transforma-la em impulso de restauração de vida. Os encontros mais se aproximam a um ateliê, em que é possível também ter alegria, do que a uma sombria usina de lamentações e queixas. A ferida emocional é real e às vezes pesada para ser levada sozinha. A construção desta rede de apoio, onde as pessoas "falam a mesma língua", afinados pela dor, funciona como fonte de inspiração para o desenvolvimento da capacidade de continuar dizendo sim à vida, mesmo diante do golpe da perda. Ao se plantar sementes de lamentação, os frutos também serão assim, mas se se semear disposição para o enfrentamento da dor e o reconhecimento de oportunidades, a colheita será de alegria pelo cumprimento desta tarefa. A questão não é se paralisar na adversidade, mas poder ir além, transforma-la em inspiração no nosso ofício de viver, que é este constante ressemear...
Matar a morte é poder reverenciar a memória, ter gratidão e reconhecimento. Constatar que a vida da pessoa que nos perdemos nos inspirou a viver e que sua morte pode nos inspirar a aprender a morrer bem. Uma boa morte pode ser o resultado de uma vida bem vivida. A morte é o fim da presença física e não do relacionamento. Querer esquecer e apagar é matar a quem se perdeu. Quando os encontros legitimam este espaço-tempo para expressão, favorece a abertura e leveza, através da permissão para que cada pessoa conte a história de sua perda. Poder esvaziar-se é também dar espaço para novas vivências, aprendizados e sonhos em que a vida ressuscite da morte. Certamente esta vivência da perda está tatuada em nosso ser, mas poderá ser transformada em abençoada lembrança, que não será novamente perdida.
Existem estilos e ritmos próprios para a elaboração deste luto, a partir da decisão de se recuperar saúde. O julgamento ou crítica do que é certo ou errado não cabem, o que importa é o que funciona para cada pessoa. Não há a negação da perda e nem a paralisia na derrota e no fracasso. " Aquele que traz luz do sol para o outro, também beneficia-se de sua luz" Sir James Barrie
Não há restrição às pessoas enlutadas quanto à posição filosófica, política ou religiosa que escolheram adotar e que se interessem em participar dar rede. O essencial para a participação das reuniões é a disponibilidade para se abrir diante de vivências comuns, nunca iguais, respeitando o direito de todos os presentes de também se manifestarem. A troca de experiências do cotidiano dessas pessoas, o expressar livremente seus sofrimentos e dores e, principalmente, o escutar esses depoimentos, traçam a linha mestra na busca de conforto, orientação e ajuda de uns aos outros.
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que o api pode fazer por você |